Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.

Livro dos Conselhos
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Li este livro em pouquíssimo tempo.
Senti-me absorvido, e fiquei admirado com o que li.

Por um lado, era o que esperava. Por outro, algo não estava na minha imagem do livro, e acabou por ser ainda melhor.

De todos os livros que li de José Saramago, talvez este seja o mais fácil de ler, e o mais fácil de adaptar para o cinema (isto se for bem aproveitado!).

Uma coisa que me fascina em Saramago: cada livro é uma obra única, e não obstante o estilo de escrita com pontuação elementar e reflectivo, conseguem ser sempre originais. Pelo que, para mim, talvez este seja mais um dos grandes livros de Saramago, embora já me tenha habituado a não dizer qual seja o melhor. No entanto, até agora este foi para mim, a nível de emoções, o mais forte!

Alguns elementos que me fascinaram: para não variar, a ideia, a mensagem, e a interpretação que caracterizam cada livro do autor; a cadeia que Saramago construiu, e um enredo que me fez, muitas vezes, delirar; as personagens, que tão bem se adaptam e que estão muito bem conseguidas, ao nível do que o escritor sempre nos apresenta; a faceta um tanto ou quanto de ficção-científica, e o romance.

Porque este livro fala da humanidade, da condição humana. Sem querer adiantar qualquer interpretação além desta, a cegueira branca de Saramago encerra meditações e perspectivas muito interessantes.

Além disso, devo dizer que este livro é recheado de cenas fortes, brutais! Impressionou-me nesse sentido. É violento, terrível, por vezes enojante. Brutal mesmo! Nem imagino como terá sido escrever o livro, mas sem dúvida foi isto que Saramago sentiu e quis exprimir.
Para mim, uma das melhores leituras.

Este é um livro a ler, ou para quem gosta de Saramago ou para quem o quer ler. Para quem ainda não leu nada do autor, este é um excelente romance para começar, vão por mim! Para quem já é experiente na obra de Saramago, é uma leitura obrigatória.
Espero agora pelo filme, que se bem feito será tão bom quanto o livro (claro, há sempre alguma interpretação que pode escapar, se virmos a essência do livro, mas sem dúvida poderá dar um excelente filme!).

(já agora, acho que os actores e as personagens coincidem muito bem ;) )

12 comentários:

Iceman disse...

De facto este é um dos melhores romances de Saramago. A meu ver é aquele onde ele melhor expressa a humanidade no seu intímo, o animal homem.

Já leste o "Ensaio sobre a Lucidez"?

Metafóricamente é a continuação do "Ensaio sobre a Cegueira" e, embora tenha menos impacto no leitor, é também ele brutal, sendo que é muito irónico e, nesse caso, expressa mais a sociedade portuguesa, não é tão genérico como é o "Ensaio sobre a Cegueira".

Pedro disse...

Iceman,
concordo contigo, é o que melhor expressa a condição humana (embora não tenha lido a grande parte da obra de Saramago, mas assim espero), o que me fascinou, e é um livro muito brutal!
Ainda não li "Ensaio sobre a Lucidez", mas obviamente, depois de ler este, lerei de certeza!

Flicka disse...

Ainda não li nenhum livro do Saramago. Já uma vez dei uma espreitadela a um dos seus livros, não me lembro qual, e reparei que não tinha paragráfos, ou seja, as frases pareciam estar coladas não havendo nenhuma "pausa para respirar", fez-me muita confusão... Há quem me disse que leu os livros de Saramago em voz alta por causa disto, para facilitar a compreensão. Portanto, vou mas é ver o filme em vez de ler esse livro. ;)

sonjita disse...

Este é um dos livros da minha vida.... adorei!!!

Pedro disse...

Flicka,
bem, por causa da pontuação toda a gente dá esse ponto como negativo, embora eu considere que ajuda muito para o leitor se integrar no livro e captar as suas próprias interjeições! Há pausas, até porque utiliza vírgulas e pontos finais, simplesmente se limita a isso. Não é um obstáculo, para mim.
Parágrafos, há-de haver sempre um ;)
Sinceramente, acho que deves primeiro experimentar ler o livro, e depois ver o filme!

Sonjita,
e com razão... Fiquei bastante impressionado, Saramago elevou-se!

Um grande abraço

pikenatonta disse...

Às vezes sinto um desespero dentro de mim por haver tantos livros que quero ler!!! Tantos, que muitos não irei conseguir...

De Saramago li apenas o "Intermitências da Morte" e até gostei. Mas nunca consegui ler "O Memorial do Convento"... Gostava de ler este livro que aqui sugeres, e depois ver o filme. As críticas que tenho ouvido parecem-me boas! :)

djamb disse...

Torna-se impossível não gostar, não é? A sua escrita mto característica acaba por definir o ritmo de forma impressionante e a história está marcada como uma sátira e uma critíca à sociedade fortíssimas, de forma semelhante a "A Metamorfose", de Franz Kafka.

Pedro disse...

Pikenatonta,
parece que todos os leitores por aqui sofrem desse desespero!
Dos dois livros que mencionas, não li ainda nenhum, mas lerei em breve se tudo correr bem! Este livro é muito bom, experimenta ;)

Djamb,
sabes, na minha interpretação do livro, eu não diria que é uma crítica à sociedade, mas sim à própria humanidade. No entanto, não és a única pessoa que já me disse isto, e a verdade é que, depois de discutir sobre o livro, percebi um pouco dessa conclusão.

Um grande abraço

Canochinha disse...

Nunca li nada do Saramago, mas anotei a tua dica de que este é um bom ponto de partida.
Confesso que, de momento, não me apetecer ler os livros dele... Não consigo explicar porquê, é uma coisa que vai para além da racionalidade. De qualquer modo, sei que mais cedo ou mais tarde isso vai acabar por acontecer :)

V.F. disse...

Vou estar atento ao filme. Vi a sua apresentação e não deixei de notar a satisfação de Saramago depois de assistir à visualização. O homem estava sem palavras perante o filme do Meireles.

Moura Aveirense disse...

:) Definitivamente, um livro que faz parte do meu "TOP 3"!

A seguir, aventure-se pelas "Intermitências da Morte" ;) igualmente fabuloso!

cristina disse...

A escrita de Saramago é das mais criticadas, das mais faladas e das mais contestadas. Ausência de parágrafos, ausência da habitual pontuação. Muita gente não percebe o porquê de ter sido ele o prémio nobel da literatura em 1998, se a "escrita de Saramago tem pouco sal". Pelo que sei, o Ensaio Sobre a Cegueira foi a porta aberta para o prémio nobel; é um livro que representa a consciência humana: quando ninguém está a ver, tudo se faz, mesmo o mais bizarro, no entanto quando todos os olhos vêem, a vergonha assume o papel principal. Comecei Saramago por esse livro, fiquei fascinada, depois li O Ensaio Sobre a Lucidez e estou actualmente a ler as Intermitências da Morte, indo de seguida para O Memorial do Convento.
As obras de Saramago têm tudo o que pode prender uma pessoa a um livro, imaginação, conteúdo, componentes cogniscientes, entre tantos. E verdade seja admitida "A estupidez tanto está nos cegos como nos não cegos" (não me venham dizer que o filme 'mal trata' os cegos, porque os únicos estupidos aqui somos nós!)